CULINÁRIA POÉTICA

PARA ABRIR A PÁGINA CULINÁRIA POÉTICA, 
O POETINHA, VINÍCIUS DE MORAES




Um surpresa gratificante O livro A POESIA É PARA COMER, uma coletânea de poemas de mestres como Ferreira Gullar, Clarice Lispector, João Cabral de Mello Neto, Adelia Prado e outros grandes nomes da poesia brasileira, portuguesa e africana (de lingua portuguesa). A partir dessas obras, um time de chefs criou receitas inspiradas nos poemas. Tem Alex Atalla, Claude Troisgros, Sudbrack e outros chefs brasileiros maravilhosos. Timaço estreladissimo. A "cereja do bolo" fica por conta das ilustrações: Tomie Ohtake, Lygia Clark, Portinari, Volpi... Todos, poemas e ilustrações, falam, de alguma forma, do prazer de comer. Ou de estar á mesa. A seleção de poemas é da portuguesa Ana Vidal. Lindo!



DRUMMOND, POESIA E COMIDA


País do açúcar
Começar pelo canudo,
passar ao branco pastel
de nata, doçura em prata,
e terminar no pudim?
Pois sim.
E o que bóia na esmeralda
da compoteira:
molengos figos em calda,
e o que é cristal em laranja,
pêssego, cidra vidrados?
A gula, faz tanto tempo,
cristalizada.


Carlos Drummond de Andrade




XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX



ANÁLISE SENSORIAL


Tentei
o doce 
de tua boca mas provei o salgado
de meus olhos.

Regine Limaverde




Seu hálito é como mel aromatizado com cravo;
sua boca, deliciosa como uma manga madura.
Beijar sua pele é como experimentar o lótus.
A cavidade do seu umbigo oculta uma profusão de especiarias.
Que prazeres repousam depois, a língua sabe, mas não pode dizer.

Srngarakarika, Kumaradadatta, século XI.


   XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX



         XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

DEVORANDO O MUNDO 




Isabel Allende



“Nasci com a boca aberta…
entrando neste mundo suculento
de pêssegos e limões e sol maduro
e esta rosada e secreta carne de mulher;
este mundo onde a ceia está
no hálito do deserto sutil
nas espécies do mar distante
que flutuam no sonho tarde da noite.

Nasci em alguma parte entre
o cérebro e a romã
saboreando as texturas deliciosas
de cabelo e mãos e olhos,
nasci do cozido do coração,
do leito infinito, para caminhar
sobre esta terra infinita.

Quero alimentar-te com as flores de gelo
desta janela de inverno,
dos aromas de muitas sopas,
do perfume de velas sagradas
que por esta casa de cedro me persegue.
Quero alimentar-te com a lavanda
que se desprende de certos poemas,
e da canela de maçãs assando,
e do prazer simples que vemos
no céu quando nos apaixonamos.

Quero alimentar-te com a terra acre
onde colhi alhos,
quero alimentar-te de memórias
surgindo dos troncos de álamo
quando os parto
e da fumaça de pinhões
que se junta em torno da casa em uma noite quieta,
e dos crisântemos na porta da cozinha (…)”


                 XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX




                 XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

ODE A CEBOLA

Pablo Neruda

Luminosa redoma
pétala a pétala
cresceu a tua formosura
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra escura
se foi arredondando o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
foi o milagre
e quando apareceu
o teu rude caule verde
e nasceram as tuas folhas como espadas na horta,
a terra acumulou o seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar remoto
duplicou a magnólia
levantando os seus seios,
a terra
assim te fez
cebola
clara como um planeta
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre
a mesa
das gentes pobres.

Generosa
desfazes
o teu globo de frescura
na consumação
fervente da frigideira
e os estilhaços de cristal
no calor inflamado do azeite
transformam-se em frisadas plumas de ouro.

Também recordarei como fecunda
a tua influência, o amor, na salada
e parece que o céu contribui
dando-te fina forma de granizo
a celebrar a tua claridade picada
sobre os hemisférios de um tomate.
mas ao alcance
das mãos do povo
regada com azeite
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no seu duro caminho.
estrela dos pobres,
fada madrinha
envolvida em delicado
papel, sais do chão
eterna, intacta, pura
como semente de um astro
e ao cortar-te
a faca na cozinha
sobe a única
lágrima sem pena.
Fizeste-nos chorar sem nos afligir.

Eu tudo o que existe celebrei, cebola
Mas para mim és
mais formosa que uma ave
de penas radiosas
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina
baile imóvel
de nívea anémona

e vive a fragância da Terra
na tua natureza cristalina.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

CHOCOLATE

Bem quente derretido,
Seu cheiro causa saliva.
A boca que transpira.
E ainda não esteve envolvido.

Misturo o branco com o amargo,
Vai misturando os dois chocolates.
Ai que isso me faz um estrago,
Esse desejo chega a ser um disparate.

Uma calda que ali borbulha,
Está o grosso e bem brilhante.
Só o cheiro é uma tortura,
Se deixar devoro tudo num instante.

Essa calda de puro chocolate,
É uma louca e gostosa tentação.
Essa fragrância tem até perfume,
Chocolate é pura sedução.

Paloma Stella Amaral



xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

O POETINHA, TAMBÉM UM BOM COZINHEIRO!

"Ajudo bastante em casa, pois sou um bom cozinheiro". 
(Auto-retrato)






RITMOS



E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:
a prosódia da mão, a ervilha dançando
em redondilha.
Misturar ritmos em teia apertada: um vira
bem marcado pelo jazz, pas
de deux: eu, ervilha e mais ninguém

De vez em quando o salto: disco sound
o vazio pós-moderno e sem sentido
Ah! hedónica ervilha tão sozinha
debaixo do fogão!

As irmãs recuperadas ainda em anos 20
o prazer da partilha: cebola, azeite
blues desconcertantes, metamorfose em
refogados rítmicos

(Debaixo do fogão só o silêncio frio)



ANA LUÍSA AMARAL

Nenhum comentário: